Pesca homem/boto é Patrimônio Cultural Imaterial em Tramandaí/Imbé no RS e em Laguna e Ararangua/SC

A pesca artesanal, na qual pescadores contam com o auxílio dos botos para a captura da tainha, foi reconhecida como um Patrimônio Cultural Imaterial no Sul do Brasil, abrangendo os municípios de Imbé e Tramandaí (RS) e algumas praias de Laguna e Araranguá (SC). O reconhecimento pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural (IPHAN) ocorreu na reunião realizada no dia 11 de março último, após pesquisas realizadas desde 2017, quando começou o processo.
A decisão celebra uma tradição centenária que representa um dos exemplos mais singulares de cooperação entre seres humanos e animais na natureza. Na prática, os botos ajudam os pescadores a localizar e cercar os cardumes de tainha. Ao identificarem o momento ideal, os animais realizam movimentos característicos que indicam aos pescadores a hora certa de lançar a tarrafa.
Essa tarefa homem/peixe atrai o público e até mesmo fomenta o turismo, pois muitas pessoas de regiões distantes vão aos locais para conhecer essa interação, o que resulta em movimento na hotelaria, rede gastronômica e outros serviços ou atrações turísticas. Pode-se passar uma manhã ou tarde toda acompanhando o movimento do pescador, guiado pelos botos. No trecho do Imbé, os restaurantes junto à barra têm grande movimentação nas temporadas de pesca da tainha.
O parecer, relatado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), justificou o pedido de registro do bem por sua profundidade histórica, complexidade socioecológica e valor simbólico e afetivo. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirmou em seu parecer. Além disso, o texto aponta que esse registro pode ampliar os limites do patrimônio cultural para além do humano “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.

Apoio às reivindicações locais no RS
Diante desse enquadramento como Patrimônio Cultural Imaterial, quando o Outono chegar no dia 20 de março próximo, começo da migração anual das tainhas rumo aos mares, pescadores artesanais e os espaços nos quais fazem a pesca, serão elementos tombados, livres de ameaças. Essa é a expectativa dos pescadores artesanais, moradores fixos e de veraneio anual, além de ambientalistas, dos municípios de Imbé e Tramandaí, no Rio Grande do Sul.
Isso pelo fato de que a área está sob ameaça com a possibilidade (já concreta, visto que todo a estrutura já foi construída) de lançamento de esgoto no leito do rio Tramandaí, em cuja foz ocorre a pesca homem/boto, ali da desembocadura nas praias de Imbé e Tramandaí. É ali que se dá o cercamento dos cardumes de tainhas pelos botos, naquele ponto – agora Patrimônio Cultural Imaterial.

Ocorre que a empresa Aegea (antiga Corsan) construiu uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) cujos efluentes serão direcionados à bacia do Rio Tramandaí. Esses efluentes como esgoto tratado, conforme a empresa, liberaria efluentes praticamente limpos, que correriam através de um emissário de 9,2 km levando ao leito do rio. O esgoto que será tratado é das praias de Capão da Canoa e Xangri-lá. Ambientalistas, políticos, as populações não acreditam nessa “água limpa do efluente”, e vêm contestando a obra.
Pareceres de técnicos independentes de instituições governamentais, contestam. Alertam para o fato de que a contaminação por metais pesados é um risco indireto e resulta em bioacumulação na cadeia alimentar e danos à saúde, como problemas neurológicos e renais. Lembram, ainda, o impacto nos manguezais que são formados junto ao leito do rio Tramandaí Nesses ambientes animais de várias espécies, entre as quais tartartugas, ratões, aves diversas, têm seus ninhos, suas moradas.

Muito importante: Os documentos também relatam potenciais danos ambientais, como a mortandade de peixes, contaminação das lagoas, poluição, desequilíbrio ecológico e impactos sobre a coletividade, povos tradicionais, pescadores, quilombolas, e ainda sobre a flora e fauna, comprometendo a existência de espécies sensíveis, como os botos da barra. Exatamente o boto e o pescador deram ao local o tombamento.
