Tropeirismo e cultura gaúcha vivos em Criúva – terra dos irmãos Bertussi

Criúva, o maior distrito de Caxias do Sul, e ex-distrito de São Francisco de Paula, é conhecida pela forte tradição gaúcha, pois nasceu do tropeirismo, tendo como principal apelo cultural o fato de ser o berço dos Irmãos Bertussi, acordeonistas que levaram a música do Rio Grande do Sul para o Brasil afora. Tanto que desde 2008 os “afamados no Rio Grande, também no Brasil inteiro”, como cantava Adelar, irmão de Honeyde, têm um Memorial em homenagem à sua jornada.

O memorial Irmãos Bertussi foi inaugurado em 27 de abril de 2008 na presença de milhares de pessoas que acompanharam as festividades em São Jorge da Mulada, uma comunidade de Criúva, onde a família Bertussi viveu e vive. Foi uma solenidade memorável, com Adelar presente, entoando uma das músicas mais icônicas da dupla: Oh, de Casa, cujos versos dão a dimensão da hospitalidade do gaúcho, nesse caso em espacial dos Campos de Cima da Serra. Um dos versos diz “E quando se dá um Oh de casa, no campo do bem querer, e só o eco responde, fazendo a gente sofrer”.

Até o Clube de Mães de São Jorge da Mulada se intitula Oh de Casa! Fica na frente da Igreja, de onde se avista o Memorial e a Casa dos Bertussi.

O memorial está localizado em um terreno elevado, em frente à fazenda da família. Num obelisco, estátuas de bronze de Adelar e Honeyde com seus acordeons são a atração máxima. Noutro ponto, no mesmo patamar, um túmulo onde se lê: Honeyde Bertussi – O cancioneiro das coxilhas 20/02/23 + 4/1/96. Nesse espaço estão depositados ou restos mortais desse grande. O irmão Adelar, faleceu em 30/09/2017, aos 84 anos e foi sepultado no cemitério de São Jorge da Mulada, com honras pelo gaitaço de centenas de gaiteiros de diversas regiões do País. Mas a família está planejando a solenidade para transladar seus restos mortais para o espaço do Memorial.

Além da estátua em bronze, o Memorial mostra em vários murais, a trajetória musical da dupla, com fotos dos artistas, de capas de discos, DVDs, cartazes, recortes de jornais, eventos.


A Casa Bertussi recebe visitação guiada mediante agendamento. Na nossa passagem por Criúva , pelo feriado de Nossa Senhora Aparecida e Dia da Criança, neste ano de 2026, não tivemos condições de fazer agendamento por falta de tempo, já que estávamos indo visitar familiares em Lages/SC e utilizamos a via Criúva Ponte dos Korff, devido ao fechamento ao trânsito da ponte das Antas na BR-116.




Sônia Santos Bertussi, esposa de Gilney, filho de Adelar informou que a visitação é feita nas várias peças da casa, sempre com a música dos Bertussi. Pode-se adquirir alguma lembrança como canecas, camisetas e outros itens, porém nem sempre há estoque. A taxa para a visita guiada é de R$ 15,00 por pessoa. Tem muitas informações nas redes sociais. Enquanto aguarda espaço na agenda para fazer essa visita, veja o roteiro da visitação, muito especial que pode ser visto no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=JZUfqMC_r6g
Mais atrativos de Criúva
Mas a linda e rústica Criúva não vive só dos Bertussi, porém ficou ainda mais famosa por causa desses dois grandes. Logo na entrada da área central da pequena vila, quem chega por São Marcos, estrada asfaltada, percurso de 16km, uma estátua em memória do 6º Encontro de Muleiros, realizado em 2014. Mais adiante, no mesmo local, a figura do Divino Espírito Santo, padroeiro da cidade. Naquele distrito de São Francisco e desde 1954 de Caxias do Sul, a devoção ao Divino é tão intensa que levou o folclorista Paixão Cortes a realizar pesquisas- como repórter da antiga Folha da Tarde /jornal da Caldas Junior – acompanhei uma das idas de Paixão Cortes, quando ele era presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF).


Com base nos dados, entrevistas e observações coletados na região, das quais Adelar Bertussi participou ativamente, Paixão Cortes escreveu e publicou o livro “Folias do Divino” (1983). Na obra, o folclorista detalha a simbologia, a bandeira, o mastro, os alferes e a estrutura da folia, destacando o papel da comunidade e o sincretismo cultural entre os gaúchos “pelo-duro” de origem biriva e os descendentes de imigrantes italianos que organizavam o festejo.
Os festejos do Divino foram introduzidos na região em torno de 1770/80, quando a colônia portuguesa fez a doação de terras para formar o que hoje, é o distrito. O local era um ponto de passagem de tropeiros. Nas suas pesquisas, década de 1970/80, o grande folclorista identificou que o distrito de Criúva guardava o registro mais autêntico e tradicional da Festa do Divino Espírito Santo no meio rural.


Nesse contexto, a igreja Matriz do Divino Espírito Santo toda de Pedra fica bem no centro da vila. Na frente, assim que se sobe a escadaria para o amplo pátio da igreja, está a estátua do padre Pedro Rizzon, (1918/2006), personagem dedicada a religião, ensino e pesquisas, uma das lideranças de Criúva e de Caxias do Sul e região, pois nasceu em São Marcos.
A Ponte de aço dos Korff

Criúva foi escolhida para a construção da primeira ponte sobre o rio das Antas (nasce em de São José dos Ausentes e deságua no Rio Carreiro em Bento Gonçalves e São Valentim e desse ponto passa a se chamar Rio Taquari) no ano de 1907. Era necessário facilitar a passagem dos tropeiros de Vacaria para o outro lado do Rio Grande do Sul, e então, a família Korff, dona da área onde hoje está o distrito de São Manoel, e que se chamava “Vila Korff” e pertencia a Vacaria, tomou as providencias. A ponte com 108 metros de comprimento e 19,6 metros de altura é toda construída com rebites (não tem parafusos). Sua estrutura foi trazida da Alemanha até a Porto de Rio Grande, e de lá desceu até o Passo dos Korff em cargueiros. Detalhe importante: apenas um carro pode atravessar por vez e caminhões não tem autorização, pois o limite máximo é de 7 toneladas e altura máxima de 3,30 metros.

Em 2006, ela foi declarada patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul. Fica a 12 quilômetros da subprefeitura de Criúva. A estrada para chegar até a mesma é de chão batido, mas está em boas condições. A paisagem é deslumbrante. Muitas ravinas, quedas d´água formando cachoeiras, floresta exuberante com prevalência de araucárias.
Em meio a tantas ravinas, grandes peraus, está o cânion Palanquinho. É tão espetacular que foi tombado pelo município de Caxias do Sul como Monumento Natural Cânion Palanquinho. O local fica a 15 quilômetros da sede do distrito. Mas quem vai à Mulada pode chegar ao Palanquinho. Logo na chegada (quem vem de São Marcos) existe sinalização bem clara dos atrativos principais. Existem muitos atrativos, e alguns podem ser conhecidos através de agências de turismo com guias bem treinados. O Guia Caxias do Sul é bem conhecido na região.

O Balneário Rio da Mulada com camping, estrutura para alimentação e acolhimento é um lugar lindo! A travessia para os atrativos do outro lado do rio é feito pela Ponte do Rio Mulada, construída em 1962 pelo prefeito Armando Antônio Biazus, do antigo PTB de Getúlio Vargas. A ponte sofreu avarias com as muitas enxurradas de 2023 a 26, mas está funcionando, porém ainda necessita de uma recuperação plena. O rio da Mulada, nesse trecho, forma corredeiras, trechos com pocinhos para banho ou pesca e outros bem rasos onde é possível a travessia a pé ou a travessia de tropas de mulas, como no passado!

